Varal de Cordéis Joseenses

Contato: prbarja@gmail.com

(Sugestões de temas são bem vindas!)



quinta-feira, 26 de abril de 2018

Conferência Livre em Cordel

     Neste mês de abril, estivemos no Pinheirinho dos Palmares, em São José dos Campos, onde participamos do Projeto Conferências Livres, etapa da Conferência Nacional dos Direitos da Criança e Adolescente:

     A participação dos Cordéis Joseenses no evento teve dois momentos: i) acompanhamento das atividades de acolhida e integração, registradas em cordel; ii) orientação da criação de poema coletivo em métrica de cordel, vinculado ao tema proposto aos jovens.
     Destacamos dois pontos, no que se refere à participação dos jovens no evento: i) a participação foi majoritariamente feminina (os meninos apresentaram maior tendência à dispersão, enquanto as meninas participaram ativamente); ii) quase todos os participantes apresentavam idades entre 8 e 12 anos, ou seja, a participação infantil superou em muito a dos adolescentes. 
     Seguem os poemas compostos:

INTEGRAÇÃO

- Você veio aqui pra que?
Pode agora responder.
- Eu não tô fazendo nada;
 vim aqui só pra comer,
  mas minha amiga me disse:
  temos muito a aprender...

E uma coisa importante
desse nosso aprendizado
é perceber que aprendemos
com o colega do lado
e que acaba, nesse instante,
de nos ser apresentado.

Ouvir é muito importante:
é a primeira condição.
Para aprender e ensinar,
tem que prestar atenção
e perceber o que o outro
tem a ensinar, como não?

Na teia que a gente forma,
todo mundo colabora:
o sentimento de dentro
podemos botar pra fora
e construir a união
dia a dia, hora a hora.

Nossas mãos são diferentes:
são diferentes na cor,
diferentes no tamanho,
diferentes no calor
- mas todas são criativas:
a do aluno e a do doutor.

As diferenças que temos
são positivas pra gente:
o arco-íris é bonito
e é todinho diferente.
Quanto mais cores unidas,
mais belo é o nosso ambiente.


NA ESCOLA

Quando estamos na escola
e queremos aprender,
passamos a aula inteira
estudando pra valer,
escutando a professora
e o que tem a nos dizer.

Quando, no meio da aula,
alguém mostra preconceito,
magoando o coleguinha
sem que tenha esse direito,
isso dói no coração,
pois demonstra desrespeito.

Outros exigem respeito
mas não tem educação:
fazem barulho na aula,
falam muito palavrão
atingindo o professor
no ouvido e no coração.

Se você chuta a parede
ou agride o companheiro,
desperdiçando a merenda
e também nosso dinheiro,
mude logo de atitude:
deixe de ser barraqueiro!

A gente veio aprender,
mas pode conscientizar,
respeitando e dando exemplo
de como compartilhar
um espaço que é de todos
e que pode melhorar.

Temos oportunidade,
com caneta e com papel,
de expressar nossas ideias
escrevendo até cordel.
Somos arco-íris vivo;
nosso bairro é o céu.


CONCLUSÃO

Percebemos que a escola
tem muita diversidade;
cada aluno tem a sua
própria personalidade,
mas calma, que isso não dói:
a diferença constrói,
se existe boa vontade.

Convivência é desafio
que a gente deve encarar
para aproveitar a vida
sem jamais menosprezar
aquele que ainda não sabe
mas, antes que o ano acabe,
muito vai nos ensinar.


Ao lado de uma professora da escola, o cordelista inicia os trabalhos.
Na mesa, as pesquisadores Vanda Siqueira e Paula Carnevale.

terça-feira, 3 de abril de 2018

CJ 82 - Atentado Inaceitável

No final do mês de março/2018, o ex-presidente Lula viajava em caravana pela região Sul do Brasil quando foi vítima de atentado: três balas atingiram ônibus da caravana. O cordel a seguir narra o fato:

Quem me conhece, já sabe:
não estou preso a partidos.
Se vejo que os brasileiros
hoje estão bem divididos,
acho que a culpa é da mídia
a quem muitos dão ouvidos.

Todos sabem que há problemas
na democracia aqui:
fartamente golpeada
(sobre isso já escrevi),
a vocação democrática
foi parar na UTI.

Eis que o Presidente Lula
pela Região Sul andava
e, de cidade em cidade,
cada vez que ele parava,
juntava-se muita gente
pra ouvir o que ele falava.

Mas a sua caravana
por todo o Sul do Brasil
sofreu agressões em série
que o mundo inteiro já viu:
a mídia internacional
tudo isso repercutiu.

Dizem que eram armadilhas
do (des)governo golpista
temendo a força de Lula,
que nasceu sindicalista
e é o líder natural
contra a sanha governista.

Houve apoiador de Lula
que muito se machucou:
saindo de Chapecó, 
uma milícia atacou
e uma pedrada na orelha
Paulo Frateschi levou.

Em Foz do Iguaçu, o padre
Idalino Alflen sofreu
pedrada e atropelamento;
mesmo assim, não se abateu.
Mostrando calma e grandeza,
assim ele respondeu:

“Não é pela violência
que o Brasil vai melhorar;
é preciso educação
e aprender a respeitar
a nossa democracia.
É preciso serenar.”

As milícias contra Lula,
sempre que ele ia falar,
soltavam rojões e fogos
para assim atrapalhar
o presidente, que ria:
“Eu chego a me emocionar!”

Furaram os pneus dos ônibus
para atrasar a viagem,
porém os apoiadores
de Lula abriam passagem
enfrentando pedras, paus
e chicotes – que coragem!

Quem ia na caravana
teve a maior agonia
com a covarde emboscada
quando terminava o dia
em Laranjeiras do Sul
- atentado, quem diria!?

Foram disparados tiros
contra toda a caravana,
em atitude covarde
de gente muito sacana
que pensa que pode tudo
só porque tem muita grana.

Em seu discurso diário,
pouco antes do atentado,
desenvolvimento agrário
Lula havia enfatizado:
“Terreno de quilombolas
tem que ser legalizado!”

Um ônibus recebeu
2 tiros, sendo um frontal;
o outro levou uma bala
que atingiu a lateral.
Não houve nenhum ferido,
mas podia acabar mal.

Os ônibus, além disso,
tiveram os pneus furados
pelos ditos miguelitos
- são pregos entrelaçados
que, confirmando a emboscada,
na estrada estavam jogados.

As suspeitas são diversas,
mas, encabeçando a lista
de hipóteses, há quem diga
que ação assim extremista
vem de bandidos bancados
pela máfia ruralista.

Isso foi no Paraná,
cujo governo tucano
transformou sua PM
num pelotão desumano
que agride até professores,
entra ano e sai ano.

Justamente esse governo
recusou dar segurança
à caravana de Lula,
que em si carrega a esperança
de um povo simples e honesto
que acredita na mudança.

O Movimento Sem Terra
escoltava o presidente
durante todo o trajeto,
com gente atrás e na frente,
mas, pouco antes do atentado,
houve curioso incidente:

O comando da PM
do Paraná disse "não"
ao povo do MST,
proibindo seu busão.
Daquele instante em diante
não houve mais proteção.

Abriu-se então o caminho
para aqueles que miraram
contra a comitiva inteira
e, sem pudor, atiraram;
se não mataram ninguém,
a lataria acertaram.

O governador paulista
foi leviano: afirmou
que o PT, levando tiros,
“só colhia o que plantou”
- Alckmin apanhou de Lula
nas urnas; não perdoou...

A senadora Ana Amélia
aplaudiu a violência,
parabenizando aqueles
que agrediram com demência
e até deram chicotadas
em lulistas, sem clemência.

A fala da senadora
ganhou espaço em jornais.
Discursos assim agravam
os conflitos sociais.
Decoro parlamentar?
Pelo visto, não há mais.

O delegado incumbido
de apurar a ocorrência
dos disparos contra Lula
cometeu uma imprudência,
sendo afastado do caso
por essa inconveniência:

 “Disparos de armas de fogo
foram feitos”, afirmou,
“contra os ônibus de Lula”,
à imprensa ele contou.
“Tentativa de homicídio”,
foi como classificou.

Eis que o Paraná puniu
tamanha sinceridade:
afastou-se o delegado
por ter dito essa verdade
que irritou o tucanato
da alta sociedade.

Esses fatos lastimáveis
no cordel vim registrar
esperando que a Justiça
seja feita sem tardar,
pois um ato assim tão grave
não se pode tolerar.

Se você vota em político
de esquerda, centro ou direita,
não importa a preferência,
uma escolha há de ser feita:
estejamos todos juntos.
Nazismo aqui não se aceita!

P eço a todos união;
B em sei que a gente é capaz.
A perseguição não pode
R eceber qualquer cartaz.
J untos, hoje, pela Vida,
A manhã teremos paz.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Um Cordel a Marielle

Nossa homenagem em cordel à vereadora Marielle (PSOL/RJ), brutalmente assassinada durante a intervenção federal/militar no Rio de Janeiro, após denunciar seguidas violências cometidas contra a população mais humilde, no contexto da intervenção.




sábado, 17 de fevereiro de 2018

No cordel mando meu grito: INTERVENÇÃO É O CACETE!

(décimas de cordel para questionar e combater a intervenção federal/militar no RJ)


Mostra o Rio de Janeiro
com seu samba lá do morro
que recusa o mau socorro
do vampiro interesseiro.
Previdência ou pardieiro?
Com certeza, sem mistério,
vamos mostrar como é sério
este valor: LIBERDADE.
Segurança de verdade
não se faz com Ministério!

Caos em pleno carnaval?
Essa treta é planejada
e a mídia segue comprada:
alega ser bem normal
a intervenção federal,
pois segurança é importante...
O golpista meliante,
com grana e bomba na mão,
parte pra intimidação
achando que se garante.

Verdade (mal) escondida:
traficante ri sozinho
se o governo faz showzinho
com as tropas na avenida.
A droga é sempre vendida!
Não queremos cacetete
nem fuzil, nem capacete
para intimidar o povo.
Esse enredo não é novo...
Intervenção é o cacete!

Pra ditadura desnuda,
isso é só mais um ensaio,
mas nessa história não caio:
intervenção não ajuda!
Jogo de cena não muda
a realidade inteira:
governo arma ratoeira
e as pulgas seguem contentes.
Pede-se ações diferentes
para a nação brasileira!

A nossa sociedade
quer de volta a Educação
que foi parar no lixão
ou passa necessidade.
Em toda e qualquer cidade,
o combate à violência
requer mais inteligência:
a receita universal
é a INCLUSÃO SOCIAL
- tudo o mais é vã demência.


Paulo Roxo Barja

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

CJ 81 - Cordel das Superstições...

Saindo do forno, com lançamento ainda em fev/2018, o Cordel Joseense 81


Vamos fazer um cordel
cheio de superstição:
sempre tem uns que acreditam,
outros já dizem que não;
tem quem aceite na boa e
quem provoque discussão (...)


Vendas & encomendas pelo tel. (12) 99129-3335



sábado, 10 de fevereiro de 2018

Décima com o mote: Tudo isso, a meu ver, é Poesia

(mote fornecido por Moreira de Acopiara)



O suor produzido no trabalho;
o arco-íris que sai depois da chuva;
o perfume que vem do cacho de uva;
o trinado emitido lá do galho;
as crianças brincando no assoalho;
os adultos que creem numa utopia;
a passista que samba noite e dia;
as mãos firmes da boa cozinheira;
cada banca de fruta numa feira
- TUDO ISSO, A MEU VER, É POESIA.

P.R.Barja

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

CJ 80 - #contragolpe

Prezados,
devido à conjunção de duas circunstâncias (a situação do país e o fato de completar 80 Cordéis Joseenses publicados), o CJ 80 não será "impresso e vendido", e sim "virtual e enviado gratuitamente em formato pdf". Solicite sua cópia gratuita pelo email:

prbarja@gmail.com

Segue a capa e o trecho final do cordel:






sábado, 21 de outubro de 2017

CJ 78 - FEAU faz 50 anos olhando para o futuro

No dia 23/10/17, às 19h, na abertura da SEAU (Semana de Engenharias, Arquitetura e Urbanismo) na UNIVAP Urbanova, ocorre o lançamento do Cordel Joseense 78, que contextualiza e conta a história da FEAU. A ilustração da capa é de Cláudia Regina Lemes e o cordel, que conta a história da FEAU, será distribuído a todos os participantes do evento:



domingo, 3 de setembro de 2017

Décimas de cordel sobre o Encontro Piraquaras (Pindamonhangaba, 1 a 3 de setembro de 2017)


A praça tem wifi mas não tem banco.
Se o povo limpa, a prefeitura briga.
Parece que o Poder deseja intriga
e a gente, se tropeça, leva tranco.
Não pode ser mais só "preto no branco":
precisa haver mais cor, diversidade!
A nossa voz também é a cidade;
nenhum governo pode nos calar.
e a gente tem mais força pra falar
quando é cardume, que é comunidade.

Só pode encontrar mesmo seu caminho
aquele que na vida se perdeu.
O povo brasileiro se fodeu
mas segue a lida assim, com flor e espinho.
Um coletivo nunca está sozinho
e vários juntos são constelação.
Seguimos com afeto e união
trocando experiências e vontade.
Queremos ocupar tudo, é verdade
- até a cabeça, com LIBERTAÇÃO!

P.R.Barja

sexta-feira, 7 de julho de 2017

CJ 77 - Um Político Infeliz (faz a cidade sofrer)

O cordel abaixo é uma ficção - mas baseia-se em fatos tristemente reais...















CJ 76 - VASTIDÃO INTERIOR (ao vivo)

No final de junho/2017, fui chamado a colaborar com a programação "Fora da Caixa", do Parque Vicentina Aranha, em São José dos Campos. Minha tarefa era desafiadora: eu deveria acompanhar o bate papo com os autores Paulo Freire e Tenório Cavalcanti e fazer inserções poéticas na forma de cordel, compondo em tempo real um folheto sobre o encontro. Nasceu aí o Cordel Joseense 76 (clique no link abaixo para conhecer o texto na íntegra):


Começando os trabalhos, na Sala de Leitura Reginaldo Poeta
A cada duas páginas finalizadas, era feita a leitura em voz alta
 
Todos atentos ouvindo Paulo Freire e Tenório Cavalcanti

Capa do Cordel Joseense 76

terça-feira, 27 de junho de 2017

sábado, 24 de junho de 2017

CJ 75 - Um Cordel a Carolina


Boas novas!
O Cordel Joseense 75 está saindo... em formato de livro ilustrado!
O livro conta a história da escritora Carolina Maria de Jesus e as ilustrações foram produzidas a partir de quadros de Claudia Regina Lemes.
Teremos lançamento dia 13/7, às 19h, no Parque Vicentina Aranha (São José dos Campos) - e estamos acertando outras cidades e locais.



A todos os que acompanham a trajetória dos Cordéis Joseenses, nosso muito obrigado!
P.R.Barja

sexta-feira, 19 de maio de 2017

CJ 74 - BELCHIOR, eis o meu nome



Sou trovador desde o berço
mas também já passei fome.
Sucesso é coisa fugaz
que chega, mas logo some.
Apresento-me a vocês:
Belchior, eis o meu nome.

Sou apenas um rapaz
tão latinoamericano
quanto Victor Jara e Fito,
Guevara e mestre Galeano,
Mercedes e Violeta,
Bethânia, Gil e Caetano.

Nasci lá no Ceará,
onde, ouvindo repentistas,
logo virei cantador
e me juntei aos artistas
nas feiras, rodas e bares,
até ganhar novas pistas

(segue...)
Paulo Barja

CJ 73 - Julgamento & Testamento de Temer Iscariotes



Satanás:
Boa tarde, meus senhores:
sei que a data é santa, mas
vim aqui numa missão
bem certeira e contumaz.
É chegada a hora e vez.
Apresento-me a vocês:
o meu nome é Satanás.

Presido aqui o julgamento
de um indivíduo sem dotes
que na Terra aprontou muito:
carregou muitos malotes...
Talvez vocês o conheçam
e dele se compadeçam:
eis... Temer Iscariotes!

Começando o julgamento,
pois é esse nosso assunto,
já que tua Carne Fraca
não serve nem pra presunto,
escuta bem e responda
sem enrolação nem onda
o que agora eu te pergunto:

Do golpe que perpetraste
vais alegar inocência?
E o que dizer da Reforma
do Ensino e da Previdência?
Fizeste só por dinheiro
ou pra sentar o traseiro
no trono da Presidência?
Temer Iscariotes:
Que foi golpe, todos sabem;
isso é coisa que não nego.
Mas tenho motivo justo
e só não vê quem é cego:
num democrático pleito
eu jamais seria eleito...
no seu nariz isso esfrego!
Satanás:
Foste o intruso maldito
no rubro céu estrelado:
filho de Cruz Credo e Judas,
sujeitim dissimulado...
Mas o cheque de um milhão
para a Dilma não foi não:
foi pra você, seu safado!
T.Iscariotes:
Nisso não vejo problema
e não mereço o braseiro.
Satanás: a corrupção
está no Brasil inteiro...
FH - não lembra não? -
comprou sua reeleição
com sacolas de dinheiro!
Satanás:
E as missivas que mandaste à
Presidenta: só queixume!
Ali, tua falsidade
com certeza foi ao cume
e eu confesso, vou dizer,
tô doidinho pra saber:
tua mulher teve ciúme?
T.Iscariotes:
Nem ciúme nem remorso:
não me incomode no esquife.
A senhora Iscariotes
vive bem, come bom bife.
Ela tem tudo que quer...
Cunha e eu temos mulher
que é perua, mas de grife!
Satanás:
Deste almoço a mafiosos,
empregaste até ladrão;
foste o exemplo perfeito
de uma podre corrupção.
Se não quer se defender,
eu te aconselho a fazer
humilde retratação...
T.Iscariotes:
Sei que, no meu ministério,
muito ladrão empreguei;
se o Maluf posa de honesto,
isso é culpa minha, eu sei.
Mas algo aqui me redime:
quase nada disso é crime,
pois as leis eu já mudei!

Satanás anuncia o veredito:

Cara de pau! É bem claro
que teu crime foi doloso!
Julgamento, nesses casos,
é mais rápido e gozozo...
Não tente me subornar:
a recatada e do lar
já é minha, seu feioso!

Cá do alto da experiência
que em eras acumulei,
és um caso inigualável
como poucos eu julguei.
Ouve agora, sem um grito:
dou por encerrado o rito
e a pena anunciarei.

É opinião deste juri
soberano, irretocável,
que esse novo Iscariotes
claramente é condenável:
vai cumprir martírio eterno,
SEM SE APOSENTAR, no Inferno,
de modo inafiançável!

Cá embaixo já tem amigos
e parceiros de contrato:
muita gente de amarelo
da cabeça até o sapato,
sem contar a grande lista
daqueles que, na Paulista,
pagaram o Grande Pato!

Receberei novo hóspede
com uma festa caliente
onde ele vai conhecer
o meu famoso tridente
tomara que se sacie
por milênios e aprecie
sem querer ranger o dente!

Aos meus amigos demônios,
peço colaboração,
pois o novo morador
merece celebração:
fez do Brasil um inferno!
Cá terá trabalho eterno.
Bem merece a malhação!

Porém, antes que comece
seu infindável tormento,
há uma coisa imprescindível
que não tarda um só momento.
Ordeno então: seja fato.
Que a fase final do ato
seja assim seu TESTAMENTO!

Testamento do condenado

Aos quinze dias de abril
de dois mil e dezessete,
na cidade de São Paulo
de Piratininga, o set
é o Largo da Batata, 
onde o que é mau se desata
nem que chova canivete.

Fui chamado a trabalhar
e por isso compareço:
eu, Satanás, Tabelião
do Ofício sem Endereço
lá da Comarca do Inferno,
onde muitos usam terno
mas ninguém merece apreço.

Perante mim comparece
Temer Iscariotes, réu
desprovido de caráter
(que já foi pro beleléu);
vem de família esquizoide:
Iscariotes Lumbricóide
sem esperança de céu...  

Entre juras de amizade,
traição, golpe, tormento,
desfaçatez e saudade,
lança aqui seu testamento
sem temer desagradar
os capangas a aguardar
ansiosos tal momento.

Perante vós, testemunhas
desta solene ocasião;
também na presença ilustre
de parceiros de traição,
Iscariotes brasileiro
diz quem vira seu herdeiro
e quem vai lamber sabão:
T. Iscariotes:
– Eu, Temer Iscariotes,
Judas desclassificado,
disponho aqui sobre tudo
que amealhei no Estado.
Dar-vos-ei conta, ó chifrudo,
sem temer ser linguarudo:
ponho escrúpulos de lado

Deixo a Marcela Iscariotes
colher de prata e panela,
uma grana para as compras
e também uma tabela
para conferir os preços,
especialidade dela.

Do Cu-Cunha não me esqueço:
foi parceiro sem temer.
A grana ele ainda tem,
mas cagou-se ao perceber
que tinha ficado nu:
foi preso! Salvo seu cu
deixando as calças pra ele.

Deixo ao Fungador Aecius,
cem caixas de Novalgina,
pois manter um helicóptero 
e ter que fazer faxina
dá muita dor de cabeça
- ainda mais com cocaína.

Para Dilma Roussefovsky
não deixo nada, nadinha:
nenhum cargo no governo
e nenhuma moedinha.
Fez pouco caso de mim?
Que se vire então sozinha!

Para os pobres também: nada!
Nem sequer um quinhãozinho, 
pois tudo que eu possuía
vou passar pro Michelzinho,
pra que se aposente cedo,
bem como o pai, igualzinho.

Tenho ainda as oferendas
a quem me patrocinou:
a gangue lá dos States
que gosta de fazer show
e, na maior cara dura,
nosso petróleo levou.

Para meu parceiro ilustre,
o nobre senhor Dinheiro
(que falta que ele me faz
quando bate o desespero!)
deixo a dívida aumentada
desse país por inteiro.

Pra malfadada Esperança,
deixo labuta dobrada
pra poder se aposentar
só em idade avançada
- mas isso se antes a Morte
não lhe der sua foiçada.

O que sobrou do Brasil
fica a ser privatizado:
por isso mesmo é que eu fiz
tudo ser sucateado.
Parte do lucro da venda
vai pra Câmara e Senado.

Na verdade eu governei
na palavra do Senhor, 
mas era o senhor de terras, 
o empresário ditador,
o juiz comprado fácil
e o banqueiro usurpador.

Para o Povo Brasileiro,
seja da roça ou cidade, 
nada deixo de valor:
que provem minha maldade!
Já perderam os direitos
e até mesmo a dignidade!


Se alguém quiser reclamar,
vai saber o que é desgraça:
deixo sem festa e sem dança!
Pra acabar, só de pirraça 
eu baixo um decreto póstumo
proibindo a cachaça!

Esse povo preguiçoso
já não quer se escravizar,
gosta de samba e cachaça,
vive sempre a improvisar,
mas eu já tenho a medida
pra isso tudo se ajeitar:

vou proibir até água
e tudo vou censurar.
Crise hídrica de verdade
essa gente vai passar,
pois vou vetar a cachaça:
com sede eles vão ficar...

Só assim terei sossego
sem ninguém me incomodar.
Quer passear? Vá ao shopping,
esse sim é um bom lugar.
Não tenho saco pra gente
que a rua quer ocupar!

Deveras desagradável
essa gente que protesta
e despreza um presidente
que vai ter chifre na testa.
Comemoram muito agora
pois chegou a minha hora,
mas o povo é que não presta!

Essa gente aí do samba
não respeita autoridade:
dizem que fui presidente
sem ter legitimidade...
O golpe foi tucanóide!
Vão atrás deles agora!

Só de ouvir a bateria
eu já começo a tremer:
lembro que não tenho voto
nem quem vá me defender!
Satanás tá do meu lado,
mas tridente é de doer.

Pra sambistas direi sempre:
Vá de retro, arrastão!
Vão se meter na política
para acordar o povão?
Vocês só querem folia
e apreciam confusão.

Querem cantar sobre tudo,
fazer crítica... não dá!
Samba assim é perigoso,
mudem essa letra já!
Não citem o juiz Morus
nem meu parceiro Jucá...

Esqueçam cargo pro Serra
e conversa com Gilmar,
esqueçam pato do Skaf
que ajudamos a inflar
e (ai meu Deus) o MBL
não queiram nem comentar...

Eu fui um rei ruim e fraco
fraco mesmo de dar dó.
Vivi com medo de tudo;
fiz o que mandaram, só...
Não precisa fazer samba
pra desatar esse nó.

Nem pensem em vir pra rua
com instrumento na mão:
não é um bando de sambista
que vai ensinar lição.
O povo nem quer saber
que a gente é ruim de doer:
NÃO FAÇAM REVOLUÇÃO!

Saio daqui condenado,
tão fajuto como entrei;
logo vou virar carvão
e esquecerão que fui rei.
Eis a RODA DA FORTUNA!
Mas eu nem acho que errei...

Preciso reconhecer:
fui capacho sem igual,
medíocre, subalterno,
servente do capital.
Tô lascado e vão vocês
começar o Carnaval...!!!


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